galeria de fotos

Caracas é nossa

por Paulo D’Amaro


A capital venezuelana lembra muito as metrópoles brasileiras


página: 1 of 1

Não é exagero dizer que um brasileiro se sente em casa em Caracas, a capital da Venezuela. Essa cidade fundada por espanhóis em 1567, a poucos quilômetros do Mar do Caribe, revela surpreendentes semelhanças com nos­sas metrópoles. É cercada de belas montanhas que lembram o Rio de Janeiro – até nas favelas que invadem a paisagem. É grande, vibrante e cosmopolita como São Paulo, e compartilha os congestionamentos de trânsito. O povo também guarda similitudes com o nosso pela simpatia, malandragem (no bom e no mau sentido), paladar e gosto televisivo pelas nossas novelas. Só destoa a preferência esportiva: nesse país tão próximo dos Estados Unidos, o beisebol é o esporte mais popular e o futebol fica em segundo plano.

Caracas tem se tornado um importante destino de viajantes corporativos. Com o petróleo valendo mais que nunca, a Venezuela vive um momento desafiador: conciliar a política socialista do presidente Hugo Chávez com o ímpeto dos investidores nacio­nais e estrangeiros. Pode parecer impossível, mas não é. Que o digam os executivos do grupo português Pestana, responsável pela construção do mais avançado e luxuoso hotel cinco-estrelas do país, inaugurado no mês passado. “A inauguração deste hotel prova que nosso país está aberto, sim, para governos e particulares investirem aqui”, disse à Revista VARIG a ministra do Turismo da Venezuela, Titina Azuaje.

O Pestana Caracas desponta em um momento oportuno. Quem vem à cidade, seja a negócios, seja de passagem rumo às Praias de Los Roques e Isla Marguerita, tem bons motivos para se deter por alguns dias neste vale e explorar as surpresas da capital bolivariana – aqui nasceu Simon Bolívar, o libertador da Venezuela e instigador da independência de diversos outros países da Amé­rica espanhola. Se algumas favelas – chamadas de ranchitos – dominam os morros, outras cercanias abrigam quarteirões arborizados, ruas floridas, mansões e atraentes shopping centers. Na dúvida, comece pelo bairro de Sucre, onde fica o Pestana. Do hotel, à beira da piscina ou no bar instalado no 18º an­dar, avista-se essa região tranqüila da cidade, colada ao Par­que del Este, espécie de Ibirapuera cara­que­ño. Bem perto fica a entrada para o Parque Nacional El Ávila, que está para a capital venezuelana como a Floresta da Tijuca para o Rio.

No Ávila fica uma montanha cujo cume atinge 2,6 mil metros (1,7 mil metros mais elevado que a própria cidade, que se situa 900 me­tros acima do nível do mar).

Pode-se chegar às partes mais altas de jipe alugado, com motorista in­cluído. Ou pelo extenso teleférico, restaurado recentemente. Apreciado de tão alto, o vale onde habitam mais de 5 milhões de pessoas cabe numa simples passada d’olhos. Do lado oposto do vale, as colinas são bem menos radicais – e mais elegantes. Na região de Valle Arriba, próximo à Embaixada dos Estados Unidos, avenidas arborizadas levam a mirantes que permitem admirar a capital do alto. É ali que ficam os campos de golfe, os clubes da elite e alguns dos condomínios mais chiques.

Os privilegiados que habitam a paz de Valle Arriba costumam se divertir em outros pontos bem mais agitados da capital: Las Mercedes, El Rosal e Altamira, os bairros boêmios de Caracas. Do jazz tocado no Juan Sebastián Bar, na Avenida Venezuela, à salsa que sacode o El Maní Es Así, na Avenida Francisco Solano, todos os ritmos se encontram. A gastronomia vene­zuelana tem redutos atraentes nessas redondezas. Há desde botecos simples, que vendem a deliciosa arepa (espécie de panqueca de milho, macia e levemente adocicada), a restaurantes sofisticados, com pratos que misturam frutos do mar – lembre-se de que o oceano está a menos de 50 quilômetros.

Perto da Plaza Francia fica o Sambil, maior shopping center da Venezuela e um dos mais amplos da América do Sul, com mais de 500 lojas. Os preços são bem razoáveis e os produtos, em boa parte, vêm dos Estados Unidos (Miami dista apenas três horas de vôo). Para quem prefe­re um programa mais autêntico, a pedida é o bucó­lico distrito de El Hatillo, na periferia, onde casinhas coloridas, ruas estreitas com chão de pedras e uma simpática praça transmitem a sensação de que o tempo parou. Melhor ainda ver tudo isso de dentro dos poucos mas charmosos cafés que se agregam às lojas de artesanato de El Hatillo. De miniaturas feitas de madeira do herói nacional (na era Hugo Chávez, a figura de Bolívar está em tudo) a artefatos de tribos do Vale de Quibor, tudo ali se acha. Como os bons chocolates caseiros, feitos de cacau local, o rum vintage da marca Santa Teresa e os charutos importados – de Cuba, inclusive.

El Hatillo é um achado nessa cidade cheia de pequenos pra­zeres e beleza oculta, germinando entre o trânsito caótico, morros invadidos e um mar de concreto cinzento. Um lugar que os brasileiros dificilmente esquecem, pelas coincidências e surpresas que oferece.