A ilha dos desejos
Cobiçada por piratas, militares, reis e, ultimamente, turistas, fernando de noronha é mais que um lugar paradisíaco
página: 1 de 1
Um dos destinos que encabeçam a lista de viagem dos sonhos da maioria dos turistas, Fernando de Noronha tem muitas facetas. Já foi base americana, colônia correcional, presídio político. Muito antes, nos séculos 15 e 16, foi invadida por franceses, holandeses e ingleses e retomada pelos portugueses, a quem pertencia desde seu descobrimento pelo italiano Américo Vespúcio, navegante que deu nome ao nosso continente. Ele esteve em Noronha em 1503, liderando uma expedição financiada por um fidalgo português que acabaria dando origem ao nome da própria ilha: Fernando de Noronha. De 1942 até 1988, foi território federal e, a partir da nova Constituição, reintegrada a Pernambuco, como um distrito estadual.
Quem vive por lá afirma: é o paraíso e ponto final. Como contradizer, se até o próprio Vespúcio afirmou ao desembarcar na Ilha da Quaresma (como era chamada) que parecia estar chegando ao paraíso? A área do arquipélago tem mais histórias do que caberia em suas dimensões reduzidas. Ele é composto por 21 ilhas, a principal e as secundárias. A nordeste, a segunda maior, Sela Ginete, faz menção a uma sela de equitação e é cercada por outras ─ Rata, Rasa, Meio e Lucena. Ao norte, encontram-se a Ilha do Morro de Fora da Conceição e as Ilhas Dois Irmãos. Ao sul, ficam as Ilhas Viuvinha, Morro do Leão, Cabeluda, Chapéu do Sueste, Trinta Réis, dos Ovos e do Frade.
Distante 545 quilômetros do Recife, Fernando de Noronha atrai turistas e personalidades do mundo todo por sua beleza singular. Até o famoso naturalista Charles Darwin esteve por lá. Mas no presente também se podem encontrar personalidades internacionais, como a atriz espanhola Penélope Cruz. Aliás, se o mais perto que você chegou de Penélope foi na primeira fila do cinema assistindo ao filme Volver, pode ter uma chance única em Noronha: dormir na cama dela. Basta pedir a suíte número 10 da Pousada Teju-Açu.
A história do local é fascinante, mas é a beleza natural, sua fauna e flora que certamente vão encantar quem lá pisar. Atobás, viuvinhas, fragatas, rabos-de-junco e mumbebos estão entre as aves marinhas avistadas em Fernando de Noronha. Os cartilaginosos tubarões são vistos em diversos locais. Das 350 espécies existentes no mundo, 14 encontram-se em Noronha. O mais comum é o lambaru, ou tubarão-lixa. Ali também vivem espécies como o bico-fino, martelo, tigre, limão, galha-preta e cabeça-de-cesto, que, apesar de temidas, nunca atacaram banhistas.
Embora seja um paraíso ecológico, símbolo de preservação ambiental, a vegetação original foi praticamente aniquilada. Nos tempos em que funcionou como presídio, desmatamentos constantes eram feitos para impedir que os presos se escondessem ou fizessem canoas e jangadas para fugir. Ainda restaram espécies originais, como as gameleiras, mulungus e burras-leiteiras. Contudo, boa parte da vegetação veio do continente.
Ir para Noronha é quase como viajar para outro país. A entrada é restrita e rigidamente controlada, e é necessário pagar uma taxa diária de preservação ambiental que tem valores crescentes à medida que a estada vai se alongando. A ilha oferece muitas opções de lazer, incluindo o nada fazer. Praias não faltam: são pelo menos 16. As mais bonitas ficam voltadas para o continente, e vê-las já é uma recompensa, mas desfrutá-las é bem melhor. Duas delas são inesquecíveis.
A Baía dos Porcos é rochosa e possui muitos aquários naturais. Em frente ficam duas grandes rochas, chamadas de Dois Irmãos. A parte alta, onde estão as ruínas do Forte São João Baptista, proporciona uma bonita vista do mar azul-turquesa pontilhado pelos rochedos escuros. A Baía do Sancho compete com a vizinha Baía dos Porcos em termos de beleza. É excelente para a prática de mergulho livre, pois apresenta boa visibilidade e diversidade de fauna marinha a pouca profundidade. É tambémg flocal de desova de tartarugas marinhas. O pôr-do-sol no mirante do Forte do Boldró é obrigatório. De lá, pode-se ver o sol por entre os Dois Irmãos. Mas talvez seja embaixo d’água que Noronha se mostre ainda mais encantadora. Mergulhar por aquelas águas é uma experiência única.
O arquipélago é um dos melhores lugares do mundo para a prática do mergulho. Suas águas cristalinas, com visibilidade de até 50 metros, abrigam peixes, raias, tubarões, tartarugas, moréias, barracudas, golfinhos, recifes de coral e naufrágios. Mesmo quem não tem prática de mergulho pode experimentar a sensação de ver a fauna marinha nas Praias de Atalaia, Baía do Sancho e Sueste, ou nos aquários naturais formados pelas pedras da Baía dos Porcos, onde é possível usar apenas máscara de mergulho para ver uma amostra incrível dos seus habitantes.
Para quem quiser mergulhar com cilindros, mesmo sem experiência, a Noronha Divers oferece um mergulho de batismo, em que um instrutor dá orientações e fica com o aluno o tempo inteiro. Resolvi fazer esse mergulho, que foi uma das experiências mais encantadoras que já tive. O tubarão-lixa descansava calmamente debaixo de uma laje e, já acostumado com os g fturistas, só faltava ter carteira de funcionário do Ibama. Mas sua visão não deixou de elevar a adrenalina. Tartarugas marinhas, moréias e diversas outras espécies podem ser vistas nesses mergulhos. Para quem já mergulha regularmente, um dos pontos altos é a corveta Ipiranga, a 64 metros de profundidade.
Para quem não quer ficar debaixo d’água, a superfície também é generosa. Com ondas de 2 metros e picos de até 5 de altura, as Praias Laje da Cacimba, Boldró, Ruro e Abrás são procuradas por surfistas do mundo todo. Se preferir ficar em terra, aproveite para fazer caminhadas ou conhecer a ilha em um buggy. Outra marca registrada da ilha, os golfinhos podem ser vistos do mirante que dá para a Baía dos Golfinhos. Nesse local, alimentam-se e procriam. Com sorte, também podem ser vistos nos passeios de barco, onde não é raro se exibirem aos turistas em saltos mortais. Noronha não é um destino próximo nem barato, mas vale cada centavo gasto.