Hospital de Barretos

texto: Carlos Moraes
fotos: arquivo do hospital



moderno, gratuito, ele é exemplar no tratamento do câncer


página:: 1 de 1

Em meados da década de 60, um médico da cidade de Barretos, dr. Paulo Prata, vivia angustiado com uma tragédia cotidiana e praticamente insolúvel: o câncer dos pobres. Gente de vida carente que ia tentar a cura em São Paulo e logo voltava assustada – com a cidade e a doença.

Em 1967, ele cria a Fundação Pio XII e, por meio dela, um hospital, o São Judas Tadeu, para tratar gratuitamente dos pobres da cidade e arredores. Tem ao seu lado a própria mulher, Scylla, também médica e até hoje presidente da Fundação, e dois colegas, os médicos Miguel Gonçalves e Domingos Boldrini. Alguns princípios já eram sagrados: p fequipe médica exclusiva, dedicação integral, caixa comum, e tudo em função de uma qualidade máxima para pacientes sem condições de pagar. Aqui o paciente vai ter um nome, um rosto e todo o respeito, pregava o dr. Paulo Prata. E acrescentava: sentir-se importante já o começo da cura.

Quando um dos filhos fazia 18 anos, o dr. Paulo informava que, à luz do que via diariamente no hospital, não podia lhe dar um carro ou coisa assim. Um deles, Henrique, foi trabalhar com o avô, na criação e comércio de gado.

Em 1988, com problemas no coração e acossado por planos econômicos do governo, o pai vê seu hospital à beira da falência e pede ao filho Henrique que faça alguma coisa. Henrique bem que tentou, mas um dia, no café-da-manhã, comunicou ao pai que estava para jogar a toalha.

À noite, depois de uma reunião com médicos, tudo mudou. Não que tenha havido, nessa reunião, grandes discursos, apelos dramáticos. Um médico contou a Henrique um fato banal, tristemente banal. Um paciente com câncer no pulmão tinha sua cirurgia marcada para dali a 65 dias. Se uma simples lâmpada transformasse a sala de curativos em mais uma sala de cirurgia, a operação poderia ser realizada em 30 dias, com real chance de sobrevivência do paciente. De uma história banal, tristemente banal, Henrique tirou uma conclusão dramática: salvar vidas não é só uma questão de boa medicina, é também uma questão de boa gestão.

Teve uma noite difícil, saudavelmente difícil, e que ele até hoje chama de “a noite da iluminação”. De manhã bem cedo, disse ao pai que o São Judas Tadeu deveria ser salvo, bem como um outro hospital, já projetado, urgentemente construído.

Isso dito, partiu para a briga. Ou, em linguagem de Barretos, terra da Festa do Peão de Boiadeiro, pegou o touro à unha e até hoje não desceu de cima dele.

Onde pôde, catou recursos na comunidade. Organizou rifas, dos mais pobres aceitou galinha, bezerro e sacos de arroz. Promoveu leilões de gado, atraiu empresas, incendiou voluntários, convocou artistas. O bem também contamina, ele diz.

Hoje, o Hospital de Câncer de Barretos é considerado o mais avançado do país em tratamento de câncer. De 90 funcionários passou para 1,5 mil. Nos seus 36 metros quadrados de área construída, 13 pavilhões atendem cerca de 2,2 mil pessoas por dia. São 250 leitos para pacientes internados e 20 alojamentos para 1,5 mil pacientes à espera de atendimento. Diariamente, 6 mil refeições são gratuitamente servidas. No hospital são aplicados os mais avançados tipos de tratamento, do transplante de medula à biologia molecular, nas mais diferentes áreas: ambulatórios, radiologia, medicina nuclear, pediatria,p fUTI, fonoaudiologia, o que de mais moderno há em diagnóstico e tratamento de câncer. Os princípios dos fundadores – respeito pelo paciente, dedicação absoluta a tratamento gratuito – continuam inegociáveis. Em 2002, o Ministério da Saúde reconheceu o Hospital de Barretos como o primeiro do país em qualidade hospitalar, entre os 6,53 mil avaliados.

Em 1994, com uma bicicleta que se transformava em mesa ginecológica, o hospital começou um trabalho de educação e prevenção do câncer em Barretos e municípios vizinhos. Em 2001, foi criada a primeira unidade móvel de prevenção do câncer de pele, próstata e colo do útero. No ano seguinte, os exames de câncer de mama incluíram, em 60 meses, 10 mil mamografias. Formada por ônibus e caminhões bem equipados, estava formada uma flamante Carreta da Prevenção, que hoje atinge sete Estados.